Como
exemplo, podemos citar a experiência corporificada de “tornar-se
outro”, ao mesmo tempo em que dramatiza os mecanismos de construção
da diferença, não deixa de ser um empreendimento anti-hierárquico
que desestabiliza as políticas dominantes da subjetividade. Pensar
essas experiências de margem talvez nos ajude a repensar o conceito
de gênero e identidade, seus limites e suas potencialidades.
Entre onde está esse sujeito híbrido?
Vamos ao encontro de Deleuze e Guattari (1996) quando
falam de Corpo sem Órgãos (CsO), fazendo uma reflexão
entre organismo e CsO. O primeiro seria semelhante à realidade
dos ossos ressequidos, porque está organizado e composto por
partes que se destacam e deixam antever funções e tarefas.
No CsO, tudo é devir e possibilidades. Nada se destaca, sobressai
ou tem função definida. É um componente rizomático,
que poderá surpreender a qualquer momento e de infinitas formas.
Buscar um CsO é deixar-se livre para transitar de um lugar
a outro, é subverter a ordem, é criar, inventar novos
modos de relacionar-se com o mundo, diferentes usos para tudo aquilo
que já possui ordem, é escapar da codificação,
é vivenciar o não codificado. O CsO está completo
e “cheio” pelas máquinas desejantes: atravessados
por linhas, fusos, fluxos, cortes, sempre em movimento, ser mutante,
pós-orgânico[3]. Devemos
inventar nossas próprias linhas de fuga, traçá-las,
mesmo que para alguns nunca seja possível fazê-las. As
linhas estão sujeitas ao perigo,
ao erro, ao abismo. É neste momento que devemos lembrar que
são necessárias injeções de prudência.
O desarranjo faz parte do próprio funcionamento, desestabilizando
o estável. O CsO não é apenas um conceito, de
ficar estratificado no papel, mas antes uma prática, várias