Feito a ressalva, passamos ao corpo ao qual desejamos problematizar.
O corpo em questão, entendido por nós, como fora já
mencionado, é o corpo que expressa princípios e valores
construídos em cada sociedade respingados no domínio
natural. Ele manifesta a sua paixão e o seu temor, prolonga
as idéias e corrói incertezas. Em cada época
o corpo demarca e constrói seu estar nas leis criadas, nos
rituais exercidos, nos mitos concebidos, nas danças elaboradas,
num beijo roubado, num afago carinhoso, no estreito laço do
parentesco, na arte serena, na religião pregada. Será
que é possível pensar o que criamos e o que somos sem
a noção e a elaboração conceitual do corpo?
Será que o nosso corpo um dia se tornará obsoleto[2]?
O corpo apresenta a indissociabilidade entre natureza e cultura. Se
por um lado existe um patrimônio biológico universal,
que torna todos os humanos membros de uma mesma espécie, por
outro, há construções corporais, sociais e culturais
diferentes entre as sociedades. Como referencia Daólio (2001),
a definição de corpo não depende de suas características
biológicas, mas de sua especificidade cultural. Quando tentamos
definir uma sociedade com base em seu comportamento corporal, estamos
o tempo todo falando de sua cultura, expressa no corpo e pelo corpo.
Portanto, o que vai ser determinante na definição de
corpo para uma sociedade, além do conjunto de hábitos
e posturas próprias desse grupo, será o próprio
conceito construído e reconstruído na dinâmica
cultural.
Através de processos naturais, definimos o que é –
ou não – natural; produzimos, transformamos a natureza
e a biologia e, conseqüentemente, as tornamos históricas.
Os corpos ganham sentido socialmente, feita dentro de um contexto
cultural, com as marcas desta cultura (Maluf, 2002).
A autenticidade passa pelo desejo. Fala-se de uma natureza do saber,
do desejo, não uma natureza anatômica. O corpo só
existe enquanto experiência. Pensar além das capturas
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